Bom dia, Sra. Morte

Era uma vez uma camponesa, muito velha, que vivia sozinha numa grande quinta, em muito mau estado. O seu marido tinha morrido já há muitos anos e, como companhia, restava-lhe apenas um gato, uma galinha, uma cabra e uma vaca.
Esta velhinha ouvia mal e já pouco via mas, apesar da sua avançada idade - 99 anos –não tinha pressa de morrer.
Até que… numa noite de tempestade, alguém bateu à porta. Numa voz doce e trémula, a velha perguntou:
- Quem é?
Uma voz cavernosa, respondeu:
- É a mooooorrrrrrte!
Um pouco surda, a velha insistiu:
- Quem?
- A morte, está na tua hora! – repetiu a voz, soletrando bem.
- Aurora?! – compreendeu a camponesa. – Que lindo nome! Mas eu não conheço nenhuma Aurora.
Timidamente, ela abriu a porta, mas não reconheceu a estranha personagem com uma foice, uma longa capa negra e ar desterrado que se apresentava à sua frente. Com um grande sorriso, a velha acolheu-a:
- Bom-dia querida senhora! Em que posso ajudá-la?
Surpresa e admirada de tanta amabilidade, a morte respondeu:
- Hum… Venho buscar-te!
- Desculpe! Fale mais alto que eu sou dura de orelha.
Aborrecida, a morte gritou:
- Vamos! Tens de morrer!
- Correr? – disse a camponesa, sorrindo – Ah, isso já não é para a minha idade. As minhas pernas já estão muito fraquinhas! Em todo o caso, é muito gentil em me ter feito uma visita. Se soubesse como eu estou só!
- Mau, sou pouco paciente! – disse a morte irritada.
- Doente?! – compreendeu a velha – Não, eu apenas tenho muita idade. Só isso!
Contrariada, ela acrescentou:
- E não goze que também lá chegará!
A Morte não sabia mais que dizer para se fazer compreender. Então, enraivecida, ela deu um enorme urro glacial para meter medo a esta sagrada camponesa. Mas a velha apenas ouviu um pequeno som rouco, como o pigarrear de uma garganta. Preocupada, ela disse:
- Oh! Mas você, minha querida, é que parece estar bastante mal. Sente-se aqui perto da lareira.
Surpreendida, a Morte ficou muda. E, pela primeira vez da sua longa existência, ela sentiu-se um pouco quente. Seria da lareira abrasadora ou a febre que começava a penetrar os seus ossos? Docemente, ela começou a fungar.
Comovida, a velha segurou-lhe a mão:
- Pobrezinha, tem a mão gelada! Deve ter apanhado frio, de certeza que é gripe! Deveria vacinar-se, sim, sim! Venha, deite-se um pouco na minha cama. Mas, está ensopada – retirou debaixo da almofada a sua camisa-de-dormir e entregou-lha. - Tome, empresto-lhe a minha camisa de noite de rendas.
Púdica, a Morte mudou de roupa atrás de um biombo e, de seguida, deitou-se na cama macia da velha camponesa, para a tranquilizar.
- Vá, não seja piegas! Não é nada de grave, isto vai passar. Espere, vou preparar-lhe um cházinho.
Alguns minutos mais tarde, a velha levou à Morte, uma chávena de chá quente de dente-de-leão polvilhado de pimenta. Ajeitou-lhe o travesseiro para que a Morte ficasse confortável, enfiou-lhe um gorro de lã na cabeça e cobriu-lhe o corpo com um grosso edredão de penas de pato. Depois, arrastou uma cadeira para junto da cama, sentou-se e começou a trautear uma ternurenta canção de embalar, da sua infância:
Dorme, dorme minha filhinha
Um soninho descansado
Que o Anjo da tua Guarda
Vela por ti, a teu lado.
Ao som da voz da velha camponesa, a Morte adormeceu.
No dia seguinte - e mesmo nos outros seguintes - a Morte, verdadeiramente doente, continuou deitada.
Para que ela não se aborrecesse, a velha ensinou-a a jogar às cartas e às damas, mas a Morte não gostava muito de jogos, sobretudo porque perdia sempre.
Oprimida, ela olhava para a bondosa velhinha, repleta de boas cores e de forças. Carinhosamente, a Morte pensou:
“ – Não morrerá nunca, esta santa velhinha!”.
De facto, assim se podia crer! Ela estava tão feliz de ter encontrado uma companhia que não parava de se mexer: arrumando a casa ou fazendo pequenas bolachas de manteiga, a sua especialidade. E quando, generosamente, a Morte lhe perguntava:
“ – Posso ajudar-te?” a camponesa respondia:
- Não, não, não te canses. Eu trato de tudo!
Contudo, uma manhã, a camponesa disse à Morte:
- Hoje estás com muito melhor aspeto. Vá, tens de te levantar. Não podes passar a vida na cama!
Depois, recomendou-lhe:
- Calça estas pantufas quentinhas e veste este robe. Ainda estás um pouco abatida! Vá lá eu ajudo-te, dá-me o braço!
A Morte, normalmente bastante forte e segura de si, sentia-se débil, consideravelmente débil. Ela própria se perguntava se alguma vez voltaria a trabalhar…
A vida ia-se organizando na quinta e o mais surpreendente aconteceu: a Morte, acabou por se ligar, amigavelmente, a esta camponesa de temperamento jovial.
Todos os dias, a Morte ordenhava a vaca enquanto a camponesa dava comida às galinhas ou ceifava o seu pequeno prado com a grande foice da sua nova amiga.
E à noite, ao serão, as duas companheiras tagarelavam, em frente à grande chaminé, mordiscando castanhas acompanhadas por um copo de água-pé.
A Morte, agora totalmente recuperada, tornou-se até imbatível às damas, o que irritou um pouco a camponesa!
Ao fim de um mês, a Morte teve de voltar ao trabalho. Havia por todo o mundo várias pessoas à sua espera. Seria bom ficar ali para sempre mas sabia que tinha de partir. Então, numa voz doce, anunciou:
- Ouve-me, minha querida, tenho de partir!
(Logo agora que elas se tratavam por tu; logo agora que eram amigas!)
Desta vez, a Morte não precisou de repetir pois a velha entendeu na perfeição e logo lhe perguntou:
- A sério?! Aborreces-te aqui?
- Não! Mas…
- Vais deixar-me só?
- Não, mas…
- Não estás bem na minha companhia? – perguntava a velha incansavelmente.
- Sim, estou! Claro que estou! Mas… mas é preciso…
A velhinha parou de fazer perguntas e ficou a olhar para a Morte, pensativa. Após alguns minutos disse carinhosamente:
- Espera amiga, nesse caso vamos partir juntas! Não vais deixar-me sozinha novamente…
A Morte hesitou:
- Hum…
- Só te peço que tenhas paciência e esperes mais umas horas; esta noite é o meu aniversário, faço 100 anos!
A Morte não a contrariou e decidiu fazer-lhe uma pequena surpresa: um bolo.
Encantada, a velha perguntou-lhe, sorrindo:
- E onde vais tu colocar 100 velas?
A Morte olhou para o bolo e respondeu:
- Tens razão! O bolo não é suficientemente grande para se poder colocar 100 velas.
- Tenho uma ideia! – disse a velha.
Foi buscar as velas a um velho armário, distribuiu-as graciosamente por toda a casa e acendeu-as.
Pouco a pouco, a noite caiu e o grande momento chegou…
A Morte pediu-lhe:
- Agora, minha querida, fecha os olhos!
A velha obedeceu e a Morte trouxe-lhe um lindo bolo. Comovida, a velhinha abriu os seus pequenos olhos brilhantes:
- Oh, como és gentil! Gosto tanto de bolos!
Então a Morte, numa estranha voz, disse-lhe:
- Feliz aniversário! Os meus sinceros votos…
A seguir, a Morte entregou-lhe um presente. Entusiasmada, a velha chorou de alegria.
- Só mesmo tu! Na minha idade, sinceramente, já não preciso de nada!
Excitada como uma criança, ela abriu o embrulho e viu… um lindo vestido branco. Tirou-o de imediato da caixa e apalpou-o com as suas mãos enrugadas.
- Como é leve e sedoso! Um verdadeiro vestido de noiva! – exclamou.
Sem mais demoras, vestiu-o… Encantada, a Morte pediu-lhe:
- Não te mexas, vou tirar-te uma fotografia!
- Então espera, deixa que eu me ponha um pouco mais bela! – respondeu-lhe a velha e foi para o quarto.
Colocou na cabeça um bonito chapéu com flores e no pescoço um colar de pérolas de todas as cores.
- É tudo o que me resta da minha mãe! – disse para a Morte.
Depois, pós o seu melhor e mais bonito sorriso.
A Morte retirou do seu saco uma máquina fotográfica e tirou-lhe várias fotografias.
A seguir, a Morte pegou num pequeno acordeão e tocou uma antiga valsa.
- Oh! – gritou a velha entusiasmada – Adoro dançar!
Embalada pela música, ela rodopiou pela sala no seu passinho ligeiro. Após algum tempo, parou e anunciou:
- Já festejámos tudo, está na hora de soprar as 100 velas!
A Morte sorriu:
- Então, toca a trabalhar!
Cheia de coragem, a camponesa soprou – uma a uma – as velas espalhadas pela mesa e parapeito da janela. Apenas restou uma na mesa-de-cabeceira que já não teve fôlego suficiente.
Depois, sentindo-se cansada, a velha deitou-se na cama:
- Creio que está na hora de repousar!
Docemente, fechou os olhos e começou a cantarolar baixinho. Depois, num sopro disse:
- Estou pronta, amiga!
Então a Morte, cuidadosamente sem fazer barulho, aproximou-se da mesa-de-cabeceira e, num sopro, apagou a última vela. Depois, reuniu as suas coisas e saiu em ponta dos pés, fechando a porta devagar.
E foi assim que a velhinha camponesa, que vivia apenas com uma vaca, uma cabra, um gato e uma galinha morreu, um dia… numa bela manhã de primavera.
FIM
Traduzido e adaptado por
Isabel Jordão
A partir do conto tradicional francês
"Bonjour, madame la mort"
de Pascal Teulade
ABRACINHOS
